quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Fotos

A exibição da última quarta-feira de "Mulheres à beira da um ataque de nervos" foi um sucesso, o público que lotou a Videoteca João Carriço se divertiu e aplaudiu ao final da sessão.

Vejam as fotos de Gian Martins.































Não percam na próxima quarta-feira "Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão", primeiro longa de Pedro Almodóvar, filme inédito no Brasil, às 19hrs na Videoteca João Carriço.  


Pepi tem sua virgindade rompida por um policial ao tentar suborna-lo para evitar ser presa por possuir plantas ilegais de maconha em seu apartamento. A garota, então, busca vingar-se com ajuda de sua amiga Bom e seus amigos Punks. Neste processo, acabam conhecendo Luci, esposa sadomasoquista do policial. Unidas, Pepi, Luci e Bom passam por diversas situações no cenário underground das noites de Madri.


O roteiro surgiu originalmente sob o título 'Erecciones Generales', idealizado como uma fotonovela para uma publicação underground e foi adaptado a roteiro cinematográfico por incentivo da atriz Carmen Maura, que participava do mesmo grupo de teatro que Almodóvar, a companhia Los Goliardos. Foi filmado com um orçamento de meio milhão de pesetas, obtidas sobretudo através de empréstimos, durante um preíodo de um ano e meio com uma equipe de voluntários, trabalhando sobretudo aos fins de semana. Antes de Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón, Almodóvar só tinha realizado gravações em formato 8 mm, de pouca notoriedade mesmo nos meios underground, de forma que, sendo gravado em formato 16 mm, este foi seu primeiro filme comercialmente exibido.

O retrato da essência humana - Um ensaio sobre a filmografia do cineasta Pedro Almodóvar
































Quando se pensa em Almodóvar, e tenta-se teorizar ou postular alguns tópicos sobre sua obra, chega-se a conclusão de que não há tópicos, ou pontos, ou aspectos determinados. Há, sim, uma fusão de idéias e sensações. Pensar na obra almodovariana é o mesmo que tentar encontrar algo da essência humana, se é que isso seja possível de ser determinado. É ir em busca de uma verdade não única, mas plural. Uma verdade que caiba em todos - digo, todos os sexos, todas as escolhas, todas as interpretações e, acima de tudo, todas as vivências. É descobrir que não há sujeitos absolutos, porque o sujeito é para lá de dissipado.
Para entender o que esta busca almodovariana quer dizer, tentaremos separar ao máximo os aspectos principais de sua obra - aspectos tão truncados e fundidos.

Observamos que em sua filmografia há uma linha coerente que torna verdadeiro, ou melhor, verossímil não apenas seu enredo, mas também seus personagens. As questões tratadas são sempre de ódio e paixão - sem meio termo, num mundo possível apenas dentro da lógica de Almodóvar.

Quando começa a escrever um filme, o diretor parte de uma cena central que funciona como o centro de um redemoinho. É a partir daí que surge o resto do roteiro que não é, necessariamente a cena dos coadjuvantes. Na verdade, poderíamos tratar vários personagens como protagonistas em seus filmes, considerando a importância e a riqueza de detalhes que há em cada um deles. Almodóvar é considerado um "reescritor nato de seu próprio material", na medida em que chega a desenvolver várias versões de uma mesma história, até se encontrar realmente seguro com o que tem em mãos.

Antes de começar a rodar o filme, ele estuda o próprio roteiro de uma forma tão intensa que conhece e trata seus personagens como se fossem reais - não como meros veículos através dos quais sua história virá a ser contada. Sabe exatamente como falam, como se movem, o que sentem. Personagens que passam a ter vida própria.

Sua obra pode ser definida como híbrida, uma vez que é duplamente tragicômica e melodramática. Com a mistura de gêneros, ele reforça a sensação que dá mais importância em seus filmes: a ênfase na emotividade. Os sentimentos e as emoções determinam pontos extremos nos enredos que são, acima de tudo, paródias da sociedade pós-moderna.
















Seu trabalho funciona como uma crítica à sociedade da forma mais irreverente possível, podendo ser relacionado com cineastas como Bergman ou Buñuel. Um aspecto marcante desta paródia é o encontro - e/ou desencontro - sexual como este se dá atualmente. Sua obra é, claramente, uma "crônica da carne trêmula" a partir de idéias originais e provocantes.

Um dos elementos mais sedutores em Almodóvar é, sem dúvida, a cor. Conta-se a história que sua mãe vestiu luto desde os três anos, na morte de seu pai, até o nascimento de Pedro. A partir daí, ela nunca mais vestiu roupas escuras. Segundo entrevista dada pelo cineasta, este fato foi considerado por ele como sendo a causa primeira de sua relação tão intensa com o cromatismo: "Depois de tantos anos de escuridão, minha mãe representa a vingança contra o negro. Eu decidi que minha vida estaria determinada pela cor, que se experimenta pelo excesso de cor". Em filmes como "Mulheres à beira de um ataque de Nervos", "Ata-me" e "De Salto Alto" são a prova concreta desse excesso de cores kitsch, vivos e marcantes. Vermelho, azul, laranja, rosa e verde se fundem em uma desordem com manifestações geométricas, trazendo à tona quadros de Mondrian ou Gatti. Em Almodóvar, a intertextualidade entre a pintura e a linguagem cinematográfica tende a abolir a existência de fronteiras entre essas disciplinas. A linguagem visual é tratada cada vez mais como una, caracterizando os extremos das sensações.

Por todas as questões mencionadas e pelo que sentimos ao assistir um filme deste diretor, sabemos que ele tenta fazer com que os espectadores vivam as emoções que se encontram em questão. E que, geralmente, são emoções femininas. Seu ponto de vista não é androcêntrico - fato inédito em se tratando de diretores masculinos. Em "Tudo sobre minha mãe", ele quase que reduz os homens à marginalidade. "Matador", "A lei do desejo" e "Carne Trêmula" são seus únicos filmes denominados, por ele, de testiculares. Apesar de que, neste último, as ações ocorrem em função das mulheres. Inversão de sexos - esta é a semente da paródia espanhola.

Especialista em registrar um retrato feminino emotivo, desesperado e ambíguo, a heroína almodovariana geralmente é uma figura tragicômica vivendo situações de traição e abandono, em um estado de solidão, sofrimento e desespero. Como mulheres espanholas, suas questões dramáticas se dão ao ritmo do bolero. Ritmo que determina o exagero dos sentimentos com sua melodia cálida, compensando todo e qualquer sofrimento.

Para o cineasta, a mulher tem um interesse em ser um sujeito dramático, afirmando que "Os homens também choram, mas penso que as mulheres choram melhor. Elas não conhecem nem o pudor nem o sentido do ridículo, nem essa coisa horrível que chamam de amor próprio". Eles as escolhe como representantes na busca da essência humana - onde, quem sabe, pode estar a verdade. A busca que sempre fez parte do homem, como comprova a inscrição no templo do deus grego Apolo, "Conhece-te a ti mesmo" - entenda seus limites, tenha consciência de si.

Almodóvar emoldura um povo tentando resgatar a consciência de si. Tentado resgatar as questões culturais, políticas, sociais. A transição de uma Espanha franquista para uma Espanha que valoriza a diversidade - a identidade do homem pós-moderno. A vontade de beber, cantar e dançar - símbolos da era liberdade pós-franco. Seu apogeu é retratado em "Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón". Em "Carne Trêmula" temos as menções à ditadura que acabava de cair, exercendo o papel de prólogo ao entendimento do comportamento da sociedade na denominada 'movida madrileña'.

Ao mostrar a sociedade espanhola em sua busca pela identidade ou o homem em busca de respostas para suas questões, Almodóvar não poderia ser mais verdadeiro. É a síntese da representação da busca humana. A busca do sonho, da essência. A procura por pessoas que nos entendam, que compreendam nossos desejos. Que compartilhem sentimentos, que vivam demasiado. "Uno es más auténtico cuanto más se parezca con lo que se sueña de si mismo", disse seu personagem Agrado em "Tudo sobre minha mãe". Verdade seja dita, autenticidade que a gente bem que tenta encontrar.

Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão

Na próxima quarta-feira, dia 25,  vai acontecer a segunda sessão da Mostra "A Essência de Almodóvar" com o raro primeiro filme do diretor espanhol "Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão". Logo após debate com o jornalista Gabriel Fortes. Não Percam!

Inédito no Brasil, "Pepi, Luci, Bom e outras garotas montão" representa muito bem a fase inicial do trabalho de Almodóvar, cheia de personagens marcantes e absurdos, embora muito humanos. O próprio diretor atua no filme, e apresenta um elenco que o acompanharia em diversos de seus filmes seguintes, como Carmen Maura, Cecília Roth, Cristina S. Pascual, entre outros. Vale a pena reparar no trabalho de Eva Siva, que representa Luci neste filme, tendo participado em outros papéis muito cômicos com Almodóvar.

Após um ano e meio de difícies filmagens em 16mm, ele estreou, em 1980, seu primeiro longa, Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón (1980). Desde então filmar se tornou sua segunda paixão. Ele escreve e dirige. E vive, o suficiente pelo menos para ser capaz de inventar estórias que são vivas. Seus filmes são exibidos em todo o mundo.


















Pepi é uma garota moderna, esperta e irreverente que vive perto da casa de Luci, que é casada com um policial. Trata-se da típica dona-de-casa quarentona, abnegada e submissa.
Mas por trás dessa aparência insignificante esconde-se um segredo. Bom é a vocalista de um grupo pop, "El Bomitoni". É violenta, perversa e muito jovem. Um acontecimento inesperado (o policial violenta Pepi em troca de manter-se calado sobre a plantação de maconha que ela tem em sua varanda) muda o destino das três mulheres e do policial.


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Cartaz


Almodóvar Fashion

A edição de março da Harper’s Bazaar, está homenageando o cineasta Pedro Almodovar que além de amar o cinema entende muito bem sobre moda.

A revista fez uma edição de releituras de cenas famosas dos filmes do cineasta. E os modelos são nada mais nada menos que - Karl Lagerfeld aponta uma arma em cena de “Carne Trêmula”, Sonia Rykiel posa com a filha Nathalie, recriando o pôster de “Mulher à Beira de um Ataque de Nervos” e Jean Paul Gaultier vive o padre de “Maus Hábitos” ao lado de Mariacarla Boscono. As fotos são de Jason Schmidt e o styling de Katie Mossman.








































Almodóvar - Mundo falocentrico, Utopia Feminina por Julio Zanin
















Pedro Almodóvar é, num primeiro momento, o cineasta do pós-franquismo, da Espanha moderna, que se desrecalca depois de uma longa e moralista ditadura. É, como já se disse, o cineasta da “movida”, da farra da Madri liberada, mas, de maneira mais profunda, da abertura do país a toda a sorte de influências, antes filtradas pela alfândega censória do generalíssimo.

Anárquico e libertário, Almodóvar pôde ser moderno sem jamais deixar de ser profundamente espanhol. Divulgou uma Espanha colorida, fortemente melodramática e picaresca em filmes como Pepi Luci Bom (1980), Labirinto de Paixões (1982) e Maus Hábitos (1983), para citar alguns dos títulos mais conhecidos dessa primeira fase. Nela, o anticlericalismo radical (só acessível a quem foi criado em ambiente puritano) une-se à questão urgente do sexo. E, posteriormente, do desejo, tratado de maneira mais ampla em Matador (1986), A Lei do Desejo (1987) e Ata-me (1990). Interessa a Almodóvar esse impulso paradoxal do desejo humano, que força os limites do socialmente conveniente e é própria afirmação de vida, mas também do seu contrário, a morte, a extinção do ser. Eros e Tânatos, segundo o jargão da psicanálise.
Nesse universo ambivalente, não faltam personagens homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais e mesmo heteros. A pulsão humana não se resume aos interesses da reprodução e da continuação darwinista da espécie, e Almodóvar coloca no centro da sua cinematografia esse caótico Eros humano que explode em todas as direções e em todas as formas, até mesmo na sua inversão mais radical, a morte. Seus filmes se desenrolam nesse universo multissexual, colorido, vibrante, nas cores da paixão e das variações possíveis em torno da ciranda amorosa.

                                                                                                                                                                  
Mas, fora isso, como numa espécie de círculo concêntrico, Almodóvar revela-se extraordinário conhecedor
da alma feminina, e apologista de um tipo particular, a mulher latina. Suas atrizes favoritas logo passaram a usar o adjetivo de “almodovarianas”, tamanha a identificação com o projeto artístico e existencial do cineasta – Carmen Maura, Victoria Abril, Rossy de Palma, Marisa Paredes, e, agora, Penélope Cruz que, com ele em Volver (2006), desabrochou, perdeu aquele ar de chatinha e assumiu-se exuberante. O interessante é que o Almodóvar anárquico dos primeiros filmes e, em especial, do grande sucesso Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), sofre mutação sutil em sua fase mais madura. Sem nunca perder o gume crítico e a alma libertária, passa a imprimir tom mais terno a seus filmes. Como esquecer, por exemplo, o final de A Flor do Meu Segredo, com a música de Tonada de Luna Llena (cantada por Caetano Veloso), que acompanha o espectador como se o embalasse em doce conforto depois de tudo que lhe fora servido ao longo da trama? Ou o tom caloroso de Fale com Ela, um dos seus mais belos títulos recentes?

Neste, em meio a uma história como de hábito conturbada, o personagem Benigno (Javier Câmara) insiste que se deve conversar com as pessoas, mesmo com pacientes em coma profundo. É um patético apelo à comunicação neste mundo de balbúrdia em que as pessoas, por paradoxo, tendem a se isolar umas das outras. O cinema de Almodóvar, terno, caloroso, vibrante, ensaia um movimento em sentido contrário. Sem nunca ser diretamente político, ainda assim ele o é, ao se abrigar no vital universo feminino, refúgio para um mundo masculino e árido – mesmo que nesse mundo real as mulheres tenham participação cada vez maior, desempenhando seus novos papéis de maneira máscula.
É desse mundo ainda falocêntrico que Almodóvar faz a crítica mais consistente do cinema atual. A cumplicidade entre as suas mulheres, a maneira prática e ao mesmo tempo suave como enfrentam as contingências da vida, da doença e da morte, apontam, no pós-socialismo real, para um outro tipo de utopia contemporânea.
(Cultura, 22/3/09)


Mulheres à beira de um ataque de nervos - Quarta-feira -18/08 - Videoteca João Carriço
Assistam ao trailer



quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Mostra "A Essência de Pedro Almodóvar"
























Para dar início oficial às atividades deste “Bordel”, nós do Cineclube escolhemos o mais brega entre os chiques dos cineastas contemporâneos. Ele trabalhou 12 anos numa empresa de telefonia, teve uma banda de “glam rock” e fez teatro experimental, hoje é o cineasta espanhol mais reconhecido do mundo, Pedro Almodóvar. 


O artista se destacou durante os anos 70, quando foi figura importante do “La Movida Madrileña” movimento de renascimento da cultura espanhola após a queda do Regime de Franco, fazendo curtas-metragens em super-8 e sempre tocando em temas controversos como sexo, drogas e religião. Mas foi apenas no final dos anos 80 que ele ganhou destaque mundial com o histérico “Mulheres à beira de um ataque de nervos”.






































Por isso, nós do cineclube nos perguntamos: “O que Almodóvar fez durante todo os anos 80 antes do sucesso internacional?” Oras, eles fez filmes! Claro! E são seus filmes mais coloridos, vibrantes, histéricos, eloqüentes, melodramáticos, “junkies”, cheios da energia do início da carreira, bordados com o que há de melhor da música popular espanhola, vividos por personagens femininos marcantes cheias de paixão e desejo e homens em crise existencial. Nesta mostra exibiremos além de “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, “Pepi, Luci e Bom e outras garotas de montão” (filme nunca lançado no Brasil), “Maus Hábitos”, “A Lei do Desejo”, dentre outros.

                                          

















Nunca ouviu falar destes filmes e nem sabe quem é Pedro Almodóvar? Então esta é a maior razão para você não perder esta mostra! Você já viu todos esses filmes? Então essa é a sua chance de revê-los em tela grande!

Extra! Extra! Extra!

No dia 25/08 haverá sessão especial do filme "Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão", após o filme, debate com Gabriel Fortes, estudante que está terminando um trabalho acadêmico sobre Pedro Almodóvar.


“A essência de Pedro Almodóvar”


Quartas-feiras de Agosto e Setembro, a partir do dia 18 (exceto 22/09)


Horário: 19h


Onde:  Anfiteatro João Carriço – Funalfa


Avenida Rio Branco 2234 – Centro – Parque Halfeld


Entrada Franca.