quinta-feira, 28 de julho de 2011

Mostra FOR RAINBOWN
























A Mostra FOR RAINBOWN - Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual, traz para Juiz de Fora um panorama da produção nacional de curtas-metragens que tratam do tema da diversidade sexual, visando promover a igualdade de direitos e a convivência pacífica de seres humanos, sem preconceito de gênero ou orientação sexual. Promovido pelo Cineclube Bordel sem Paredes em parceria com o Conselho Nacional de Cineclubes e apoio da FUNALFA, a mostra acontece nos dias 04 e 11 de Agosto as 19 horas no Anfiteatro João Carriço.


A MOSTRA ITINERANTE do IV FOR RAINBOW – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual, acontecerá em 150 cineclubes de todo o Brasil, com filmes premiados e outros títulos exibidos nesta edição do festival. Estes filmes estarão concorrendo ao troféu Artur Guedes de Melhor Filme, selecionado por júri popular, em todas as localidades de exibição.


Além disso, será realizado um vídeo de até cinco (5) minutos com uma mensagem que verse sobre o combate a homofobia no Brasil em parceria com o MUDDse - Movimento Universitário em Defesa da Diversidade Sexual e com o Coletivo Sem Paredes. Este vídeo inaugura um novo programa da diretoria de Acervo e Difusão do CNC - Conselho Nacional de Cineclubes, conhecido como "Mostra Cá Que Mostro Lá", fruto de uma experiência de monitoria da ação Cine Mais Cultura, na região do Ceará. O cerne desse programa se baseia no compartilhamento de registros cineclubistas oriundos de diversas localidades do país, em uma plataforma de compartilhamento de vídeos produzidos por cineclubes que está sendo desenvolvida pela diretoria de Acervo e Difusão do CNC.



PROGRAMAÇÃO 


04/08 - 19 horas


On My Own 
Direção: Yuri Yamamoto - Fortaleza/CE
Experimental, 04 min, 2008
Um garoto numa eterna busca: a procura de sua identidade, de forças para ser quem é, de alguém para apoiá-lo. Dúvidas e certezas, dois opostos tão naturais nessa idade. 



Eu não quero voltar sozinho
Direção: Daniel Ribeiro - São Paulo/SP 
Ficção, 17 min, 2010
A vida de Leonardo, um adolescente cego, muda completamente com a chegada de uma novo aluno em sua escola. Ao mesmo tempo ele tem que lidar com os ciúmes da amiga Giovana e entender os sentimentos despertados pelo novo amigo Gabriel. 

Brincos de estrelas
Direção: Marcela Bertoletti - Rio de Janeiro/ RJ
Ficação, 19 min, 2008
Brincos de Estrela conta a história da descoberta do amor entre duas amigas. O curta vai explorando os medos e receios dessa personagem à medida que seus sentimentos vão tomando conta da sua vida.

Homofobia, lesbofobia e transfobia
Direção: Felipe Fernandes - Brasília/DF
Documentário, 09 min, 2008
O vídeo busca refletir sobre as categorias usadas por ativistas lésbicas e travestis para se falar das violências contra suas identidades. Trazendo vozes sobre os usos dessas categorias, esquadrinha algumas aproximações e distâncias entre a pauta específica destas em relação ao "segmento" como um todo. Mostra situações em que o "ser lésbica" e o "ser travesti" produziram particularidades no que tange a discriminação e a violência. 

E agora Luke
Direção: Alan Nóbrega - Rio de Janeiro/RJ
Animação, 04 min, 2010
Luke é um rapaz que está iniciando a sua vida adulta e é obrigado a se defrontar com os seus valores religiosos, morais, sociais, após um segredo seu ser descoberto.


















Café com Leite 
Direção: Daniel Ribeiro - São Paulo/SP
Ficção, 18 min, 2007
Quando os planos para o futuro mudam, novos laços entre Danilo, Lucas e Marcos são criados. Entre videogames e copos de leite, dor e decepção, eles precisam aprender a viver juntos.


11/08 - 19 horas 

GLOSSário
Direção: Fabinho Vieira - Fortaleza/CE 
Experimental, 02 min, 2008
Duas travestis, com todo seu carisma e encanto, revelam os significados dos termos e gírias próprios que já caíram no gosto popular. 


Felizes para sempre
Direção: Ricky Mastro - São Paulo/SP
Documentário, 07 min, 2009.
Felizes para Sempre faz parte do projeto "Fuking Diferent São Paulo". Essa era a idéia inicial do projeto "achar um casal gay que estivesse junto há décadas" e foi assim que selecionamos as nossas candidatas: através do site e entrevistas com o diretor Ricky Mastro e assistentes de direção Lilian Baldo e Rodrigo Dorado.


Sem Purpurina - Realidade LGBT Na Baixada Santista
Direção: Fernanda Balbino, Lara Finochio,
Lívia Carvalho e Xenda Amici - Santos/SP
Documentário, 15 min, 2009
O documentário mostra os sonhos, as alegrias, os dramas e a luta contra o preconceito sob a visão da comunidade GLBTT e especialistas.

Depois de tudo 
Direção: Rafael Saar - Niterói/RJ
Ficção, 12 min, 2008
Depois do Adeus, veio a espera. Depois da espera, veio o retorno. Depois de tudo, eles desejam estar juntos e um dia é suficiente para esperar o seguinte. 


Ensaio de cinema 
Direção: Allan Ribeiro - Rio de Janeiro/RJ
Experimental, 15 min, 2009
Ele dizia que o filme começava com uma câmera muito suave, com um zoom muito delicado e avançada em busca de Bardot. 
















Amanda e Monick 
Direção: André da Costa Pinto 
Documentário, 19 min, 2007
No município de Barra de São Miguel, sertão paraíbano, dois travestis vivem vidas opostas. Enquanto um tem aceitação da família, amigos e até mesmo dos alunos, outro se envolve com o mundo da prostituição.


AS SESSÕES ACONTECEM ÀS QUINTAS-FEIRAS - 19 HORAS NA VIDEOTECA JOÃO CARRIÇO 
(Av. Rio Branco, 2234 (Prédio da Funalfa) - Centro)


terça-feira, 26 de julho de 2011

FOR RAINBOWN

Vejam a vinheta da mostra FOR RAINBOWN que começa a partir do dia 04 de Agosto.




Filmes que serão exibidos:


Brincos de estrelas
Direção: Marcela Bertoletti - Rio de Janeiro/ RJ


Depois de tudo 
Direção: Rafael Saar - Niterói/RJ


E agora Luke
Direção: Alan Nóbrega - Rio de Janeiro/RJ


Ensaio de cinema 
Direção: Allan Ribeiro - Rio de Janeiro/RJ


Eu não quero voltar sozinho
Direção: Daniel Ribeiro - São Paulo/SP 


Felizes para sempre
Direção: Ricky Mastro - São Paulo/SP


GLOSSário
Direção: Fabinho Vieira - Fortaleza/CE 


Homofobia, lesbofobia e transfobia
Direção: Felipe Fernandes - Brasília/DF


Sem Purpurina - Realidade LGBT Na Baixada Santista
Direção: Fernanda Balbino, Lara Finochio,
Lívia Carvalho e Xenda Amici - Santos/SP


On my Own
Direção: Yuri Yamamoto - Fortaleza/CE

Viajo porque preciso, Volto porque te amo













Por Celso Sabadin

Não é muito usual no cinema brasileiro o longa metragem dirigido em parceria. Talvez Walter Salles e Daniela Thomas (Linha de Passe) sejam a exceção que confirma a regra. Menos comum ainda é que esta parceria seja realizada entre dois cineastas já consagrados em seus filmes anteriores. Apenas isto já valeria uma espiada em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, dirigido a quatro mãos por ninguém menos que Marcelo Gomes (de Cinema, Aspirinas e Urubus) e Karim Aïnouz (dos ótimos Céu de Suely, Madame Satã). A boa notícia é que, muito mais do que a simples curiosidade cinematográfica, o filme traz uma rara inspiração poética.

Tudo é narrado sob o ponto de vista de um personagem que não aparece em cena. Apenas ouvimos a voz de José Renato (Irandhir Santos, o vilão de Besouro, que estará também em Olhos Azuis), um geólogo que parte solitário para uma longa viagem pelo interior do Brasil, onde deverá analisar os terrenos por onde passará um futuro canal. Pelo caminho, entre o peso de sua solidão e a aridez – literal e simbólica – de seu ofício, ele cruza com pessoas ligadas à terra e imagina belas cartas de amor à sua amada distante. Cada vez mais distante.

Não se sabe onde começa a ficção e termina o documentário. E nem é intenção que se saiba: o filme resulta de um processo que levou mais de dez anos de captação de imagens em vários suportes, do antigo Super-8 ao moderno digital. Um mergulho pelo interior de um Brasil e de uma alma dolorida.

Os diretores jogam no lixo qualquer tipo de padronização estética e oferecem ao público um inebriante coquetel de imagens oníricas, propositalmente imperfeitas, onde o ruído e o desenfoque são a própria linguagem de um protagonista muito bem localizado na geografia do país, mas totalmente perdido no emaranhado de próprio labirinto emocional.

Sim, é um road movie. Não do tipo tradicional, mas sim uma bela viagem sensorial pelo interior de um sentimento. Em tempos onde o 3D impõe uma nova exigência visual (e financeira) às novas platéias, é bom, muito bom, constatar que ainda se faz cinema de alta qualidade apenas com uma câmera no carro e uma paixão no coração.


QUINTA  - FEIRA - 28/07 - 19 HORAS NA VIDEOTECA JOÃO CARRIÇO 
(Av. Rio Branco, 2234 (Prédio da Funalfa) - Centro)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Serras da Desordem



































Por Vlademir Lazo

Passados anos de sua realização (e posterior exibição) de Serras da Desordem, o filme de Andréa Tonacci prossegue sua existência firme na lembrança dos que o assistiram e alheio a uma multidão que o ignora ou simplesmente nunca ouviu falar nele. Saudado como o retorno de Tonacci vinte cinco anos após o clássico marginal Bang Bang (embora não devam ser esquecidos os documentários etnográficos que dirigiu nessas três décadas, e que muito o prepararam para Serras da Desordem), o filme se estabelece como um novo mito de nossa cinematografia.

Pouco visto e divulgado (ainda não saiu em DVD e é raro encontrá-lo nas programações dos canais de TV), Serras sofre uma marginalização tristemente coerente com a trajetória de seu realizador e com o universo que seu filme circunda. Num tempo em que a maioria dos sucessos do cinema nacional são filmes (e isso inclui os bons e os ruins) que parecem feitos para quem especificamente não gosta de cinema nacional, Serras se ergue como uma peça de resistência sobretudo por ser um filme brasileiro até a medula. Tonacci pode ter citado nas entrevistas alguns cineastas que o inspiraram (como Roberto Rossellini, para ficarmos em apenas um exemplo), e nada impede que ao nos confrontarmos com o filme estabeleçamos conexões com obras das origens mais diversas, porém não enxergamos ali uma maior influência européia, americana ou asiática. Serras da Desordem é filme essencialmente brasileiro, no sentido de que não poderia pertencer a nenhuma outra cinematografia, visto que sua razão de ser é emergir um bocado da identidade do país e de uma etnia, mas muito também por sua pregnância estética que não encontra paralelo com nada conhecido ou que tenhamos visto antes.

Escrever sobre Serras da Desordem pode incorrer em ao menos um problema: o do quanto é difícil descrever em palavras e comentá-lo à altura dos seus atributos. O seu encanto vem de uma tal potência de forma e conteúdo (que se imbricam o tempo todo) que desafia a possibilidade de sua descrição. E como deter-se no filme sem a vontade de colocá-lo num pedestal, o que por si só cairia no perigo de torná-lo ainda mais à parte e distante do que nos rodeia, deixando-o como um objeto cinematográfico vítima do excesso de reverência que seus maiores admiradores alimentam (nossa reação natural é mesmo a de maravilhamento)? Serras é tão novo e já um mito não-visto, menos conhecido do que deveria. Um filme para poucos, quando ao contrário, deveria mesmo era ser assistido por multidões relativamente maiores. O que não pode é o próprio mito do filme afastar espectadores desconfiados e os não-curiosos por medo ou aversão pré-concebida. Porque, mais que uma investigação a fundo sobre um povo e um país, Serras da Desordem desemboca numa aventura estimulantemente cinematográfica.

O crítico norte-americano Jonathan Rosenbaum certa vez escreveu que é preciso se tornar amigo de O Vento Nos Levará (de Abbas Kiarostami) para o filme se abrir por inteiro ao espectador, mas que depois suas recompensas se tornam ilimitadas. O mesmo ocorre com Serras da Desordem: não é preciso esforço ou dedicação redobrada para compreender ou apreciar sua proposta, porém ao nos permitirmos estabelecer uma intimidade com o filme de Tonacci, com as possibilidades que ele abre em nosso olhar, suas recompensas são bem mais amplas do que com a maioria dos outros filmes.















Como já ocorria em Bang Bang, Tonacci é um cineasta que mantém o seu cinema em constante fluxo. A cada plano há a necessidade de chegar a imagem/abordagem mais adequada. Daí seus filmes desconcertarem num primeiro momento. Na abertura, temos um prólogo com um índio na selva, e logo aparecem outros, em planos lúdicos que compartilham conosco suas ações (como o corte do mato para produzir o fogo ou banhos em grupo no riacho) durante uns quinze minutos, com muitas fusões e variações cromáticas que nos deleitam o olhar sem se tornarem gratuitas, reforçando a atmosfera pretendida pela ambiência desse contexto primitivo. Seria uma encenação ficcional da vida indígena pré-Descobrimento ou num tempo posterior ou atual? Um registro documental de um grupo indígena no presente?

O filme rompe as fronteiras entre a representação e a documentação. Nada nos é explicado (pelo menos não num primeiro momento), apenas observamos como o filme consegue capturar a textura da vida cotidiana daquelas pessoas, e essa representação é tão verdadeira que pouco importa se estamos diante de um filme de ficção ou se os acontecimentos são contemporâneos ou pré-colonial. Os detalhes das ações são menos importantes em si do que a maneira com que Tonacci simplesmente acompanha em planos fixos os indígenas. Poderíamos mencionar o começo de 2001-Uma Odisséia no Espaço como um paralelo próximo ao da abertura de Serras da Desordem, cuja natureza e habitantes primitivos também são transformados pela inclusão de elementos novos e estranhos. No filme de Kubrick, o aparecimento do monolíto extraterrestre e a descoberta do osso como armas para a caça e a guerra; no de Tonacci, o avião sobrevoando os céus da floresta (tendo apenas o som que ele produz, e o olhar curioso dos personagens, nos localizando também no tempo) e a chegada do trem (cujo fundo sonoro à base de sintetizadores prolongam a experiência sensorial e manifestação concreta e fluida que já se desenvolvia até ali e prossegue até o final) prenunciando o progresso e a destruição advinda do homem branco.

Toda uma perspectiva da construção da civilização brasileira é apresentada na montagem do fragmento seguinte: sobreposições de imagens de arquivo com o desmatamento e derrubada de árvores e florestas, construções de ferrovias, períodos históricos recentes, estádios de futebol repletos de gente da classe trabalhadora, usinas hidrelétricas, carnaval, conflitos com a polícia, atentados políticos, entre muitas outras passagens brevemente resumidas. Em suma, todo um amplo mosaico (não didático ou intelectual) de alguns minutos a partir das aldeias com os primeiros habitantes indígenas até a contemporaneidade é passado a limpo no primeiro ato de Serras da Desordem, com a transformação de um país sempre em busca de uma identidade perdida e jamais recuperada.

Ocorre o massacre de uma tribo, Awa-Guajá, por criminosos brancos. Serras da Desordem se revela como a reencenação da história de um sobrevivente do massacre, o índio Carapiru, cuja história é a própria síntese de sua civilização expulsa do território que ocupavam. É o próprio Carapiru, mais velho, que interpreta a si mesmo anos depois dos acontecimentos, com as variações de formato, 16mm/vídeo, alternância entre preto-e-branco e cores, utilização de material de arquivos, depoimentos e entrevistas, etc. Em alguns momentos, um filme de aventura (realçado por efeitos da própria montagem), em outros, de puro registro documental. Serras da Desordem é tanto um painel antropológico e humano quanto um mosaico estético, que nunca nos deixa desorientado, mas imersos em sua construção, pois esta se desenvolve de maneira orgânica, se desvela de modo natural. Carapiru foge e é acolhido, primeiro por uma comunidade rural, depois pelos moradores de uma região do sertão, que o ensinam a se adaptar à vida urbana até se afastar deles e reencontrar um filho perdido e sobreviventes de sua tribo, e até se perceber também diferente deles e novamente ir embora.

Nem ficção ou documentário (deixemos as classificações para os resenhistas de sinopse ou para os acadêmicos de plantão); Tonacci faz com algumas histórias reencenadas trinta anos depois diante de uma câmera se transformem em história que acontece agora também, fatos são dramatizados e convertidos em película, transformados em cinema puro. O cineasta acaba com a linha tênue do documental e ficção. E o filme e a trajetória de Carapiru dentro dele se encerram com um registro da sua própria filmagem: o próprio Tonacci dando instruções à sua equipe sobre as primeiras imagens do filme que está sendo feito, e já à esta altura em definitivo parte integrante de cada um de nós, o filme que terminamos de assistir, evidentemente. O círculo se fecha, mas pede que sempre retornemos a ele.


QUINTA  - FEIRA - 21/07 - 19 HORAS NA VIDEOTECA JOÃO CARRIÇO 
(Av. Rio Branco, 2234 (Prédio da Funalfa) - Centro)



terça-feira, 12 de julho de 2011

Entrevista com Beto Brant















Troféus de melhor direção, trilha sonora e ator revelação no Festival de Brasília/2001, eleito melhor longal atino no Sundance/2002 e melhor filme pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Esses são alguns dos prêmios do filme “O Invasor” de Beto Brant. Um dos mais respeitados cineastas brasileiros, com três filmes na bagagem, fala ao Semana 3 sobre formas de divulgação de cinema, produção nacional, festivais, Oscar e, claro, de “O Invasor”. Além disso, à pedido, Brant fez uma lista dos dez melhores filmes nacionais de todos os tempos

Entrevistadores:
Carlos Eduardo Moura
José Ricardo Manini
Silvio Anunciação

“O Invasor” tem uma estética diferente dos outros dois filmes que você fez. De onde você tirou essa estética?
A estética vem do amadurecimento. Você faz três filmes e o exercício de tomada, a prática que você tem que enfrentar, de que maneira editar o filme, tudo traz o amadurecimento e gera uma compreensão do que é cinema. “O Invasor” é o filme que eu considero o meu filme mais redondo, o que eu me aprofundei mais, não que os outros dois (“Ação entre amigos” e “Os Matadores”) também não tenham sido experiências muito legais. Todos os filmes que eu faço são mergulhos na literatura do Marçal Aquino. Eu não relato minha experiência, eu pego o conflito sugerido pelo Marçal na literatura e começo a pesquisar, quem são os personagens, em que lugar eles circulam, e isso aconteceu nos três filmes. Este filme já tem uma atitude mais radical, que eu enfrentei mais, que eu fui mais fundo nas questões, o filme tem um conflito mais pessoal, porque eu vivo em São Paulo.

Você disse em uma entrevista que o Marçal Aquino retrata muito bem o Brasil moderno. Em quais pontos?
Como ele tem uma experiência grande como jornalista, ele tem uma forma de olhar o contemporâneo, de enxergar a crônica no que está por trás da notícia, não o que está na superfície, com seus números, sua objetividade e suas descrições, mas sim tentar ver as pessoas que estão por trás do fato jornalístico. E se posicionar e narrar aquilo do ponto de vista dessas pessoas.

“O Invasor” é, então, retrato de uma parte de São Paulo?
É uma história. Em primeiro lugar, o que eu acho que o Marçal faz é contar uma história, ele é um escritor. Ele tem uma habilidade pra construir histórias, as tramas são muito envolventes. Mas com certeza ele está sempre no reboque de alguma coisa que seja contemporânea, que seja atual, ligado à realidade. Isso aconteceu nos três filmes. Não tem outra ambição. É um olhar dele, não sei se é pessimista ou otimista. Eu acho que o final do filme não é pessimista, é otimista, de falar assim para uma das personagens, “menina, acorda, acorda!”, já que ela representa uma geração hedonista, que só quer saber de curtir a vida.

Parece que há uma onda de filmes procurando retratar a realidade…
Olha, a situação do “O Invasor” é completamente passível de acontecer, não é nada muito fora da realidade. Mas ele não é um filme realista, naturalista, porque de acordo com a paranóia do Ivan (personagem do filme), o filme vai criando um hiperealismo, ele viaja na estranheza da paranóia do personagem. Há uma super realidade ali. Há um incômodo, no tom das cores, na música, na imagem, como se isso fosse narrar a perspectiva do Ivan.

Como você acha que o diretor deve se portar nesse debate entre realidade e ficção, iniciado por “Cidade de Deus”, acusado de mostrar um lado muito negativo do bairro e que está interferindo naquela mesma realidade?

Isso é muito complicado, não sei dizer. A discussão é boa, faz parte do jogo da cultura, do jogo político, de se colocar questões e discutir. Ou seja: três milhões de espectadores (“Cidade de Deus”). Por que esse interesse todo?  Não que seja aquilo ali mesmo o que aconteceu, mas pelo menos uma parte daquilo aconteceu. Agora, também vai haver filmes que vão tratar do lado bacana da periferia, de diversos núcleos da realidade, de fazer um trabalho conjunto, aquele filme por exemplo da Rádio Favela, “Uma onda no ar”. Assim como existem várias igrejas evangélicas, que a mídia “mais inteligente” tem um preconceito tremendo. Mas existem linhas dessa comunidade religiosa, evangélica, que tem uma importância muito grande, por causa da união que eles têm na adversidade em que vivem. O que eu acho mais importante nisso aí hoje é que a politização é geral, não vem só do cineasta, mas da sociedade toda. Antigamente, as pessoas não estavam nem aí com o jornal. Pegavam uma revista semanal e achavam que estava mais do que bom. Agora, não. As pessoas estão a fim de saber passo a passo o que está acontecendo na política, existe uma politização geral, que pode ser vista muito bem nessa campanha do Lula. Mas isso é algo que já vem antes disso. Eu acho que o Estado brasileiro está se aperfeiçoando e há um momento que se explicitou o lado negro, o lado ruim, os vícios e eles estão sendo mostrados, as pessoas estão antenadas nisso. Hoje em dia há uma vigília muito maior, sobre o espaço da política social. Então isso não é algo isolado do cinema, acho que é geral. Como daqui a algum tempo será necessário filmes com um aprofundamento mais interior.




















Como é o filme que você está pensando em fazer, não é?
É. Como é que você sabe?

É só uma pergunta.
Pois é. Desse filme eu não falo nada (risos). Mas vou falar pra defender, então. A sociedade se prende também em alguns valores morais. Não são só valores políticos, mas também de convívio social, preconceitos. Então é nesse lugar que eu vou tocar. Não no social, no particular.

Você acredita que vai haver um momento em que as pessoas irão se voltar para esse lado?
Não sei se vai haver. Se você pegar aquele filme “Janela da Alma”, você vai ver que ele é nessa direção. É algo muito sensível, nesse sentido. É afetivo e emocional. O “Madame Satã” eu acho que é um híbrido disso. Ao mesmo tempo em que ele apresenta aquela unidade familiar completamente estranha, bizarra, ele apresenta também uma poesia.

Você já disse que um de seus sonhos é que os seus filmes cheguem a um público enorme. Mas ao mesmo tempo você não abre mão do debate, não é?
Eu acho que esses filmes todos, inclusive “Os Matadores”, foram muito vistos, inclusive na Rede Globo, quando passou. Então não importa se sejam polêmicos ou não. A questão não é que o filme não seja apropriado para muita gente, mas que não existem hoje formas de apresentar este filme para muita gente.

E quais seriam estas formas?
Eu acho que tem uma questão de circuito exibidor, que é elitista, que é de shopping center. Não é que o cara não quer ver filme brasileiro. Quer, mas não pode, também. Então tem que ter formas de exibir como a televisão, que é grande e poderosíssima. Não pode ter essa idéia de que há uma programação ruim porque isso é o que o público quer ver. Isto é ridículo, uma estupidez. Eu acho que se o Canal Brasil fosse um canal de TV aberta ele iria dar um banho de popularidade.

Mas uma Rede Globo, por exemplo, não coloca o filme porque acha que não vai dar audiência.
Mas dá. Isto é uma questão política, não é uma questão de IBOPE. Os filmes brasileiros quando passam na Globo passam às onze horas, meia-noite. E mesmo assim dá audiência.

E qual seria essa questão política?
A questão é que a Globo também é produtora de imagens. Então por que é que ela vai comprar direitos de outros filmes, se ela vai desprestigiar o produto da casa? Outra coisa é a idéia de controle editorial que o conteúdo de alguns filmes não são convenientes. Há um controle ideológico da televisão. Isso é um medo. Agora, por que o Canal Brasil não é um canal aberto? Porque esvazia a audiência de quem já domina. O Canal Brasil é do Grupo Globo. Se fosse aberto, a audiência seria enorme e poderia até reverter essa renda pro realizador. Eles me ofereceram um dinheiro para mostrar “O Invasor” que era ridículo, 10 mil reais. A Globo também não paga muito melhor não. Paga 30, 40 mil pra exibir um filme. Mas imagina quanto custa 30 segundos de propaganda no intervalo de um filme. Então é ridículo. Se ela programasse o filme brasileiro não para meia-noite, mas para umas dez da noite, se pagasse melhor, como paga filmes americanos, então estaríamos em melhor situação.  O fato é que você não pode montar uma sala de cinema na periferia, isso é inviável comercialmente. E há alternativas ao circuito estabelecido, como o circuito universitário e o que a Lais Bodanzky tem feito, o Cine Mambembe, que passa por diversas partes do país com um projetor e apresenta o filme. Mas a televisão é o melhor instrumento de chegar. Seria ótimo poder estar na televisão aberta de uma forma melhor. Isso é entretenimento, é debate.

Apesar destes problemas de exibição, o cinema brasileiro tem apresentado desde a metade da década de 90 uma retomada no crescimento. Quem você citaria como os principais diretores?
É, 2002 foi um ano muito bom para o cinema. Desde 94, desde “Carlota Joaquina”, nós queríamos acreditar que existiam muitos filmes bons sendo feitos por aqui. Mas eram só alguns. Felizmente, no ano passado, vários filmes legais foram realmente feitos. E com uma boa surpresa: os documentários, que estão sendo bastante vistos e ganhando espaços nas salas de exibição. Eu gostei especialmente do “Santo Forte” (Eduardo Coutinho, 1997). Gostei muito também do “Madame Satã”, outro bem legal é o “Amarelo Manga”. O trabalho do Walter Salles e do João Moreira Salles é muito bacana. A Tata Amaral eu gosto muito do primeiro filme dela e o Jorge Furtado, eu acho que em 2003 vai arrepiar.

E o Fernando Meirelles?
(Silêncio)

E o Fernando Meirelles?
(Outra longa pausa) Ah, cara… eu não vi nada dele. Só vi o “Cidade de Deus”. (Pausa) Mas é um trabalho legal… Um filme muito bem feito, competente… Acho legal o final dele, com o lance da foto do personagem, “com essa foto eu arrumo emprego, com a outra eu viro herói mas sou morto” e ele opta pela que vai arrumar o emprego, ou seja,  ninguém precisa ser herói. Essa moral do filme eu acho legal.

O que você pensa sobre o Oscar?
Todo mundo critica para burro que o cinema brasileiro é estrangeiro dentro do seu próprio país, por quê? Por que o mercado é formatado, tem um embaixador do cinema americano aqui que defende o seu mercado, seus privilégios. O Oscar é a celebração máxima do marketing do cinema de Hollywood. Então eu não entendo para quê tanta festa se aquilo é a celebração do carrasco do cinema. Eu não tenho nada contra o Oscar, só acho ridículo a importância que se dá a ele. Acho ridículo o público se pautar pelo filme que foi indicado ao Oscar. “Ah, se ‘Cidade de Deus’ fosse indicado para o Oscar ia chegar a 5 milhões de espectadores”. Isso é uma equação cruel do marketing do cinema. Agora, divirtam-se com o Oscar, eu não perco meu tempo, tenho coisa mais interessante para fazer. Tem também o cara que vem me dar os parabéns porque o filme ganha prêmio. Daí eu pergunto para ele: “Você viu o filme?” E ele: “Ah, não vi”. Porra, então, só me dá parabéns pelo filme.

Você pode fazer uma lista dos 10 melhores filmes nacionais de todos os tempos?
Difícil, mas vamos lá: “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (Gláuber Rocha), “Lúcio Flávio” (Hector Babenco), “Brincan­do nos Campos do Senhor” (Hector Babenco), “Memórias do Cárcere” (Nelson Pereira dos Santos), “Copacabana Me Engana” (Antonio Calmon), “Filme Demência” (Carlos Reichenbach), “Todas as Mulheres do Mundo” (Domingos Oliveira), “Madame Satã” (Karim Aïnouz), “Anjos do Arrabalde” (Carlos Reichenbach) e “Macunaíma” (Joaquim Pedro de Andrade).

Publicada originalmente no jornal Semana 3 (ed. 10, fevereiro de 2003)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Invasor























Por Celso Sabadin


Prepare-se para mergulhar no submundo da criminalidade paulistana. Depois de Os Matadores e Ação Entre Amigos, o cineasta Beto Brant retorna às telas com mais um forte trabalho sobre traição e marginalidade: O Invasor, prêmio de Melhor Filme Latino-americano no Sundance Festival.

Com narrativa crua e de poucas concessões comerciais, Brant conta a história – até certo ponto simples - de dois amigos, sócios de uma construtora, que contratam um assassino profissional para eliminar um terceiro sócio. Sob forte tensão, o crime é cometido, mas não sem sérias conseqüências para os seus mandantes: o criminoso contratado passa a freqüentar constantemente a construtora, em busca de novos “pagamentos”.

A forma de O Invasor é mais arrebatadora que seu conteúdo. Câmara na mão, linguagem nervosa, tensão constante e excelentes interpretações fazem o espectador grudar na poltrona. Propositalmente, a música incomoda. O filme incomoda. E, principalmente, a realidade que ele retrata beira o insuportável.

A ironia social também está presente em O Invasor. Ao se apaixonar pela filha do homem que matou, o marginal busca a própria ascensão financeira. Entre a rica herdeira solitária e o frio assassino profissional brota o inevitável ponto em comum: as drogas. Se o abismo social está cada vez mais profundo, o mesmo não se pode dizer da proximidade dos hábitos de cada classe. Mas tudo tem limite: ao invasor, é vetada a transposição das cercas da pirâmide social.

A performance do ex-Titã Paulo Mikos no papel do incômodo invasor chega a ser impressionante: quem não o conhece pode até acreditar que ele seja um criminoso de verdade. Beto Brant se assessorou de freqüentadores do submundo para a pesquisa das gírias e maneirismos quem compõem seus personagens. E obteve ótimos resultados.
O filme vai na contramão do entretenimento fácil, com um final que subverte os padrões estéticos que acostumamos ver nos maniqueístas policiais americanos. De uma forma ou de outra, somos todos mocinhos e somos todos bandidos no bangue-bangue da criminalidade urbana brasileira.

14/07 - Quinta às 19 horas na Videoteca João Carriço -  ( AV. Rio Branco, 2234 (Prédio da Funalfa) - Centro)  


terça-feira, 5 de julho de 2011

FOR RAINBOWN - Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual




O FOR RAINBOW - Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual está consolidado como um dos mais importantes do Brasil, relacionado a esta temática e com acesso gratuito em todos os seus espaços e Juiz de Fora irá fazer parte da mostra itinerante.

A MOSTRA ITINERANTE do IV FOR RAINBOW – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual, acontecerá em 150 cineclubes de todo o Brasil, com filmes premiados e outros títulos exibidos nesta edição do festival. Estes filmes estarão concorrendo ao troféu Artur Guedes de Melhor Filme, selecionado por júri popular, em todas as localidades de exibição.

Filmes que serão exibidos:


Brincos de estrelas
Direção: Marcela Bertoletti - Rio de Janeiro/ RJ


Depois de tudo 
Direção: Rafael Saar - Niterói/RJ


E agora Luke
Direção: Alan Nóbrega - Rio de Janeiro/RJ


Ensaio de cinema 
Direção: Allan Ribeiro - Rio de Janeiro/RJ


Eu não quero voltar sozinho
Direção: Daniel Ribeiro - São Paulo/SP 


Felizes para sempre
Direção: Ricky Mastro - São Paulo/SP


GLOSSário
Direção: Fabinho Vieira - Fortaleza/CE 


Homofobia, lesbofobia e transfobia
Direção: Felipe Fernandes - Brasília/DF


Sem Purpurina - Realidade LGBT Na Baixada Santista
Direção: Fernanda Balbino, Lara Finochio,
Lívia Carvalho e Xenda Amici - Santos/SP


On my Own
Direção: Yuri Yamamoto - Fortaleza/CE



Em breve mais informações...

"Fiz o filme pra me curar"

















Em seu documentário, "Santiago", João Moreira Salles se expõe como nunca em sua obra. Ele conta que concluiu o longa em meio a uma crise pessoal e que pretende abandonar o cinema

Por Armando Antenore

Se Santiago apenas retratasse um mordomo exótico, seria um filme curioso, como os inúmeros que abrem espaço para personagens incomuns. Se desenhasse o mesmo retrato e ainda desnudasse os bastidores do fazer cinematográfico, seria um filme curioso dentro da extensa família de produções que pensam sobre si próprias. O novo trabalho de João Moreira Salles exibe as duas características, mas também uma terceira, o que o torna absolutamente original e, talvez, um marco entre os documentários brasileiros.

Por partes: o mordomo em questão se chamava Santiago Badariotti Merlo. Argentino de sangue italiano, trabalhou durante três décadas para o banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles, pai de João e de outro cineasta, Walter Salles. Certamente, pouquíssimas figuras conseguiriam se revelar tão peculiares quanto Santiago, um tipo que tocava castanholas e venerava música erudita. Pelas manhãs, separava pequenos pedaços de papéis, preenchia-os com aforismos ("abortos mentais", explicava) e os disseminava por todo canto. Não bastasse, encontrava tempo para elaborar uma espécie de enciclopédia, em que registrava a biografia de reis, aristocratas, chefes indígenas, astros de Hollywood e da TV. Algo como a história universal das celebridades. Eram centenas e centenas de listas, que o acompanharam até a morte, em 1994.

João cresceu ao redor de Santiago num casarão da Gávea, hoje a sede carioca do Instituto Moreira Salles. Quando tinha 30 anos, em 1992, decidiu rodar um filme sobre o antigo mordomo, àquela altura já octogenário e morando sozinho num pequeno apartamento. Por alguns dias, entrevistou o ex-empregado e o registrou de incontáveis maneiras. No entanto, nunca concluiu a obra.


























Em 2005, depois de se tornar um documentarista premiado (é autor de Notícias de uma Guerra Particular, Nelson Freire e Entreatos),  retomou o longa-metragem sem saber exatamente que caminhos seguir. Acabou produzindo um segundo filme que reflete sobre o fracasso do anterior. Em Santiago, não há imagens novas. O cineasta — atualmente com 45 anos — aproveita o material que captou no passado e o remonta. Amarra as cenas por meio de uma narração em off. Eis o pulo do gato, a terceira característica que ilumina o documentário: a narração, na primeira pessoa, não só exprime os anseios, os dilemas, as falsificações e as mesquinharias da filmagem de 1992 como destrincha as memórias e as inquietações de João Moreira Salles. Falando do mordomo, do casarão e do longa que naufragou, o diretor fala de si com uma rara franqueza. Leia, abaixo, a entrevista que ele concedeu a BRAVO! no Rio de Janeiro:

BRAVO!: Você é um documentarista reconhecido que sempre zelou pela discrição. No entanto, em Santiago, resolveu se expor publicamente. Por quê? É uma auto-sabotagem?

João Moreira Salles: Não, talvez seja exatamente o contrário — uma tentativa de me salvar, de me curar. Fiz Santiago pensando sobretudo em sanar as aflições que me rondavam a alma e que, de certo modo, ainda me atormentam. Trata-se de um filme essencialmente terapêutico. Quando decidi rever o material que rodei em 1992, tinha 43 anos e atravessava uma intensa crise. Estava adquirindo a consciência muito profunda de que as coisas realmente passam e de que não conseguimos recuperá-las. Para mim, que não acredito em nada, que não alimento nenhuma fé metafísica, a morte e a passagem do tempo são problemas imensos, obsessões que sempre me acompanharam. A diferença é que, com 30 anos, possuía apenas uma compreensão abstrata, intelectual do assunto. Agora, a compreensão se tornou concreta. Compreendo com as tripas. Intuitivamente, julguei que retomar o documentário inacabado me ajudaria a organizar o caos em que imergira. Há quem, no meio de uma tempestade existencial, resolva usar drogas, viajar a Lourdes e clamar por um milagre, conhecer o Dalai Lama ou praticar esporte. Eu resolvi fazer um filme.

BRAVO!: Em que sentido fazer o filme poderia contribuir para tirá-lo da crise?

Pelo fato de que Santiago também estava às voltas com a passagem do tempo, ainda que à maneira dele. As listas de celebridades que elaborava pretendiam imortalizar aquela gente toda. Santiago tinha uma concepção de vida e morte quase helênica e, por isso, bela. Para os gregos, um homem morre quando o esquecem e vive quando o lembram. Se Homero lembra, o guerreiro Aquiles existe. Se Homero não lembra, Aquiles deixa de existir. Assim, realizar um filme sobre Santiago significava realizar um filme sobre as questões que me assombram. Era um jeito inconsciente de me aproximar do problema com serenidade, sem tanto horror. Digo "inconsciente" porque, quando decidi resgatar as imagens, não fazia idéia do que iria encontrar ali. Não me recordava das cenas.

BRAVO!: E funcionou? Concluir o filme lhe trouxe paz?

Não por completo. Mas tirou muito do veneno, da pimenta que o problema destilava em mim. Só os loucos se tranqüilizam inteiramente com a consciência da finitude... Ao montar o filme, percebi um aspecto na figura de Santiago que me comoveu e que contribuiu para me apaziguar um pouco. As listas que ele transcreveu durante décadas não têm função prática nenhuma. Revelam-se inúteis, se levarmos em conta a noção de utilidade que costumamos atribuir às coisas. Entretanto, Santiago agarrou-se àquela inutilidade na esperança de engrandecer a própria vida. Deu sentido à sua existência dedicando-se a algo que não é nada. Agiu como cada um de nós deveria agir. Até porque, no limite, tudo o que produzimos acaba se mostrando tão inútil quanto as listas de Santiago. O próprio cinema é inútil.

BRAVO!: O cinema?

Exato, ainda que boa parte dos cineastas não concorde. O universo funcionaria perfeitamente sem o cinema — e sem a literatura ou as artes em geral. Adoro aquele célebre verso de W. H. Auden: "A poesia não faz nada acontecer". Os poemas, os filmes, as pinturas são inúteis. Eis o que os enche de beleza em um mundo absolutamente utilitarista. Na verdade, a crise que enfrento decorre também das dúvidas acerca de minha profissão. Nunca me considerei um cineasta. E nunca fiquei à vontade entre cineastas justamente por não partilhar do entusiasmo com que eles discutem o cinema. Alguns livros e alguns quadros me causaram impacto maior do que os melhores filmes a que assisti. É uma deficiência minha, não do cinema. Encaro o gesto de filmar apenas como um trabalho. Um acidente. Não se trata de uma vocação genuína. Não é dali que extraio prazer. Tenho, inclusive, lacunas enormes em minha formação e não me sinto obrigado a superá-las.

BRAVO!: Que lacunas?

Conheço bem a tradição do documentário, mas não vi obras ficcionais importantes. Não vi nada de  F. W. Murnau, por exemplo. Nem Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni, ou Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica. Vi poucos westerns de John Ford, já que o gênero quase sempre me aborrece. Enfim... As lacunas são incontáveis.

BRAVO!: Falando em lacunas, por que você não conseguiu terminar Santiago da primeira vez?

Porque, na época, achei que as imagens careciam de fluência narrativa. As cenas não se ligavam. Faltavam elos. Não notei que havia um terceiro protagonista no filme — eu próprio. Ou melhor, a minha relação com os outros dois personagens: o mordomo e a casa da Gávea. Daí a dificuldade de montar o longa. É como se quisesse encenar a tragédia de Otelo e Desdêmona sem incluir o Iago. Precisei de 13 anos para me dar conta dessa ausência. Assim que a identifiquei, não pude fugir do óbvio: ou me expunha ou o filme continuaria capenga. Claro que relutei imensamente à hipótese de me mostrar por saber que um fio muitíssimo tênue separa a auto-exposição do narcisismo. Foi quando li uma declaração do cineasta francês Chris Marker: "O uso da primeira pessoa num filme equivale a um ato de humildade. Tudo o que tenho a oferecer sou eu mesmo". Se necessitava de um álibi, acabara de o encontrar. Resolvi, então, mergulhar de cabeça na aventura. Vou me expor? Que seja como em uma sessão de psicanálise: nada de esconder as mesquinharias, os golpes baixos, as fraquezas.

BRAVO!: Por isso você não cortou as cenas em que trata Santiago de modo autoritário, quase agressivo?

Sim. Em 1992, talvez devido à onipotência juvenil, cultivava idéias extraordinariamente pretensiosas sobre cinema. Desejava conceber um filme de uma beleza absoluta, de um rigor absoluto, glorificando o que existe de pior no formalismo estéril. E enxergava qualquer documentário como sinônimo de controle. O diretor elimina do mundo todos os imprevistos e manda os personagens repetirem 15 vezes a mesma seqüência até alcançarem uma espécie de perfeição. Muito do meu autoritarismo, da minha ansiedade no set derivava dessa postura rígida, dogmática. O curioso é que não a percebia. Agora, penso exatamente o oposto: não temos como controlar nada. O acaso, portanto, deve fazer parte do filme. O fortuito, a surpresa, o acidental. Há documentaristas que saem para a rua com um mapa, sabendo o que procuram. E há aqueles que saem sem mapa nenhum e sem saber direito o que querem. Estes me interessam mais hoje em dia. Eu, antigamente, carregava um mapa. E o mapa só indicava uma autoban, uma rodovia plana; não considerava atalhos ou estradas vicinais.

BRAVO!: Mas Santiago parecia gostar da encenação e do controle sobre a realidade. Ele, de certa maneira, passou a vida medindo os próprios gestos, incorporando um tipo exótico e caricato. Você traiu Santiago quando optou por questionar o controle e a encenação no filme?

Todo documentarista acaba traindo seus personagens de uma ou outra forma. Sempre os respeita, exceto se assume o comportamento de um mau-caráter, e sempre os decepciona. Afinal, os personagens jamais se reconhecem integralmente na tela. Em parte, o Santiago do filme é ele mesmo. Em parte, é a ficção que faz de si próprio e o desmonte dessa ficção.

BRAVO!: Num único momento do documentário, Santiago dá sinais de que abdicará espontaneamente da encenação para contar algo muito íntimo. Tudo indica que pretendia se confessar gay. No entanto, você o impediu. Por quê?

De novo, porque eu estava disposto a ouvir somente aquilo que desejava escutar e não o que ele queria dizer.

BRAVO!: Mas por que você não estava disposto a ouvir especificamente aquela revelação?

Por julgar que Santiago iria se expor em excesso. Tentei protegê-lo e, lógico, evitar meu próprio constrangimento diante da situação inesperada.

SANTIAGO
07/07 - QUINTA - 19 HORAS -  Videoteca João Carriço ( AV. Rio Branco, 2234 (Prédio da Funalfa)- Centro)