segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Cidade dos Sonhos



Por Juliana Fausto

Ao assistir a Cidade dos Sonhos, tem-se a impressão de que tudo ali já foi visto antes, no cinema do próprio David Lynch; referências a Twin Peaks, Veludo Azul, Coração Selvagem e Estrada Perdida aparecem a todo momento e com uma tal profusão que, à primeira vista, pode-se pensar que o cineasta não fez senão repetir-se, reciclar seus próprios temas sem sair do lugar. Mas uma segunda olhada pode nos mostrar que Lynch sabia bem o que estava a fazer e que, ainda que seu ponto de partida seja o diálogo com a sua própria obra, que esse diálogo não é nunca estático.

Cidade dos Sonhos começa com um acidente de carro que salva uma mulher (Laura Elena Harring) de ser assassinada; com amnésia total, ela vaga por entre casas até resolver se alojar na residência de uma senhora que parte naquele momento para viajar. Acontece que a tal senhora havia emprestado seu apartamento para uma sobrinha vinda do interior para tentar a sorte como atriz ali, em Hollywood. Essa sobrinha, Betty (Naomi Watts), exemplo de boa moça, encontra a acidentada e, ao saber de sua história – isto é, daquilo que a outra se recorda, de que esteve envolvida em uma batida de carros – resolve ajudá-la a descobrir a sua verdadeira identidade. Uma cena antes, aparentemente desconectada do resto da ação, dá já o tom do filme: dois homens conversam em uma coffee shop; o primeiro narra ao segundo um sonho horrível que teve. Ali, naquela mesma lanchonete, ele via o amigo nervosíssimo a fitar o horizonte e acabava por se apavorar ele mesmo, ao descobrir a razão do sofrimento do outro: um homem horrível atrás de uma parede. Como que para se purgar de tal pesadelo, ele pede ao amigo que o acompanhe até essa parede, que fica do lado de fora da coffee shop; o amigo vai. Eles seguem lentamente até que surge, por detrás do muro, um rosto horrendo, que olha o homem do sonho. Esse olhar é suficiente para que ele caia no chão, terrificado. Alguns momentos antes, dizia ao amigo: "Espero não ver nunca aquela face fora do sonho". Cidade dos Sonhos é um sonho. E um pesadelo.

O filme como que se divide em duas partes - à maneira de Estrada Perdida: na primeira, a história da amnésica; na segunda, uma espécie de variação da primeira história, com as personagens em outros papéis. Em ambas, trata-se de um sonho. Mas não um sonho do tipo que pode ser explicado pela psicologia. Como sempre, em Lynch, os signos não fazem referência nunca a algo externo, mas existem em si, como signos, fundamentalmente; o sonho lynchiano não revela nenhum desejo oculto de personagem, não se baseia em experiência psicológica ou remete a algo fora de si mesmo. Para realizar esse tipo de sonho, neste filme, o cineasta se vale do superlativo: atuações exageradas e cores fortes dão o tom de seu sonho/pesadelo, que não é em relação com a realidade, mas funciona como um certo tipo de percepção. O seu exagero não faz de Mulholland Drive, porém, uma caricatura risível; antes, ele busca seriedade em cada clichê que lança – e são muitos, sendo esse mesmo o motivo pelo qual se pensa que o filme é somente uma repetição vazia do que o cineasta realizou até aqui, quando, em verdade, o diálogo que se trava é com todo um sentido de cinema – desde o momento em que decide se utilizar deles no sentido fundante que os transformou a cada um em clichês.



Mas aqui, ao contrário de Estrada Perdida – em que primeira e segunda parte, por se localizarem em uma mesma dimensão, não faziam nenhum sentido juntas – é a segunda parte que, alterando totalmente o sentido da primeira, põe em cena o destino do qual não se pode fugir, tema tão caro a Lynch. A segunda parte é o pesadelo da primeira e, ao mesmo tempo, a primeira parte, a fantasia da segunda. Mas nas duas há um ponto comum: o amor que Betty/Diane sente por Rita/Camilla, a acidentada da primeira parte. Ou seja, estamos sempre em território lynchiano, o terreno da paixão, terreno em que, não importa o que se faça, há que se sempre cumprir seu destino. A paixão aqui, leva até aquilo que os franceses chamam de effondrement, um tipo de afundamento, de desmoronamento. É o duplo desmoronamento de Betty/Diane que presenciamos.

Em determinado momento do filme, as duas amantes vão assistir a um espetáculo; nele, o mestre de cerimônias fala: "Não há orquestra. Não há orquestra. Está tudo gravado". Isso resume a intenção do diretor porque diz: está tudo gravado, tudo determinado já de antemão. Não importa o que se faça, há de se eternamente chegar ao mesmo lugar. Nesse sentido, o que importa é muito menos a conseqüência da ação do que ela, como percepção e experiência, em si. E se esse é o tema que vem perpassando todo trabalho de Lynch, ele aqui atinge, talvez, seu ponto mais alto: porque cada elemento do seu Cidade dos Sonhos converge univocamente para um lugar, o cinema.


QUARTA- 24/11 - 19H NA VIDEOTECA JOÃO CARRIÇO 

2 comentários:

  1. olá! realmente as obras de David Lynch sempre são intensas!
    infelizmente não estou tendo tempo para aparecer no bordel sem paredes, mas gostaria de fazer um pequeno anuncio em meu blog! posso!? :)
    abraço!

    http://carminausher.blogspot.com/

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  2. Claro Camila...É um prazer... e este bordel é sem paredes, pode vir quando quiser...

    Bjus!

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