sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Curtas do Glauber na tela ...


Aconteceu ontem no Anfiteatro João Carriço, mais um dia da mostra Glauber Sem Paredes. A sessão foi marcada por curtas experimentais, polêmicos e documentários do diretor.
Antes de iniciar a exibição, foi aberto um rápido bate papo contando a história dos filmes a serem passados e explicou-se algumas curiosidades sobre a vida do cineasta.
Exibição do documentário Jorjamado no cinema (1977).
Dentre os 5 filmes que foram exibidos, o último curta foi: “Di Cavalcanti Di Glauber”, o filme tornou-se polêmico por ter sido gravado durante o enterro de Di Cavalcanti, o que causou mal estar na família do pintor que proíbiu sua veiculação. Esses filmes que não estão no circuito midiático são exemplares dificílimos de encontrar; você só consegue assití-los em iniciativas como as do Cineclube.
Cineclube Bordel Sem Paredes continua a exibir  Glauber Rocha nas próximas semanas e, na quinta feira, você assiste ao Programa Abertura, que reuniu uma equipe de intelectuais antes da TV Tupi fechar suas portas.
O Cineclube funciona todas as quintas-feiras, no teatro João Carriço/Prédio da Funalfa e a entrada é gratuita.

Por Carolina Bisaggio

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Mostra Glauber Sem Paredes - Curtas do Glauber




A Mostra Glauber Sem Paredes, apresenta nesta quinta-feira uma seleção de alguns curtas e média metragens produzidos por Glauber Rocha. Os curtas que serão exibidos, refletem um pouco de todas as fases do universo glauberiano. Em um tempo onde a arte virou algo totalmente superficial, é uma bela experiência ter contato com a estética revolucionária do cinema de Glauber Rocha. O mais impressionante é que esses filmes permanecem atuais, as idéias de Glauber continuam pulsando, vivas, gritando na nossa cara e nos causando náusea diante da realidade.




O PÁTIO (1959) -  11 minutos 



“Procuramos, humildemente, fugir das facilidades “criativas” que a literatura e as artes plásticas (como também a música) poderiam nos oferecer e procurar o que se julgaria difícil ou impossível: organizar um universo fílmico que vivesse por si mesmo, sem saber, de princípio, a problemática humana que surgiria daí. O processo de trabalho foi simples: como duas figuras humanas – macho e fêmea -, jogadas sobre um pátio em preto e branco com vista par o mar e céu e cercado por folhagem, partimos como a câmara, utilizada como instrumento, em busca do visual mais limpo, mais depurado, e que sairia do seu estado real para o estado de poeticidade, através unicamente da solução de enquadramento, do ponto-de-vista seletivo do cineasta em busca de elementos válidos que, na sala de montagem, lhe propusessem o problema de “criar” o organismo rítmico, o filme em seu estado de cinema enquanto cinema. É certo que a utilização de figuras humanas criou, dentro da lógica fílmica, uma pequena anedota. Todavia cremos que esta fica isolada em segundo plano desde quando o que imporá, fundamentalmente, é o clima fílmico, a nova dimensão de poeticidade que a peça cria. “Pátio” não quer “dizer” nada, não quer “discursar ou narrar’ essa ou aquela atitude humana, mas tão-somente criar em seu próprio âmbito aquilo que encontraríamos no grego Cacoyanis e no Kubrick de “A Morte Passou por Perto”: “estados” que só podem ser criados pelo enquadramento e pela montagem, os materiais de trabalho do cineasta consciente do seu ofício. A afirmação pode parecer pretensiosa, mas é apenas uma atitude honesta frente ao cinema que, no certo dizer do crítico Cláudio Bueno Rocha, não passa, hoje em dia, de simples arte de entretenimento. (Glauber Rocha, in “Jornal do Brasil, RJ, 29 de março de 1959, Suplemento Dominical)


Di GLAUBER (1977) - 19 minutos


"Filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso o filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição. A Festa, o Quarup - a ressurreição que transcende a burocracia do cemitério. Por que enterrar as pessoas com lágrimas e flores comerciais? Meu filme, cujo título, dado por Alex Viany, é Di-Glauber, expõe duas fases do ritual: o velório no Museu de Arte Moderna e o sepultamento no Cemitério São João Batista. É assim que sepultamos nossos mortos.
Chocado pela tristeza de um ato que deveria ser festivo em todos os casos (e sobretudo no caso de um gênio popular como Emiliano di Cavalcanti) projetei o Ritual Alternativo; Meu Funeral Poético, como Di gostaria que fosse, lui.... o símbolo da Vida... No campo metafórico transpsicanalítico materializo a vitória de São Jorge sobre o Dragão. E, no caso de uma produção independente, por falta de tempo e dinheiro, e dada a urgência do trabalho, eu interpreto São Jorge (desdobrado em Joel Barcelos e Antônio Pitanga) e Di-O Dragão. Mas curiosamente Eu Sou Orfeu Negro (Pitanga) e Marina Montini, dublemente Eurídice (musa de Di), é a Morte. Meus flash-backs são meu espelho e o espelho ocupa a segunda parte do filme, inspirado pelo Reflexos do Baile, de Antônio Callado, e Mayra, de Darcy Ribeiro. Celebrando Di recupero o seu cadáver, e o filme, que não é didático, contribui para perpetuar a mensagem do Grande Pintor e do Grande Pajé Tupan Ará, Babaraúna Ponta-de-Lança Africano, Glória da Raça Brazyleira! A descoberta poética do final do século será a materialização da Eternidade." Di (Das) Mortes, GlauberRocha, texto mimeografado, distribuído na sessão do filme em 11 de março de 1977 na Cinemateca do MAM.

                                                                                                                                                                
AMAZONAS AMAZONAS (1966) - 15 minutos
  
Primeiro filme a cores de Glauber Rocha, a produção feita por encomenda começa como um documentário clássico sobre as belezas e riquezas da região amazônica. Até que a verve glauberiana irrompe tanto na conformação do quadro quanto na locução abertamente nacionalista.
“Cheguei no Amazonas com uma idéia pré-concebida e descobri que não existia a Amazônia lendária e mágica, a Amazônia dos crocodilos, dos tigres, dos índios, etc...(“Revolução do Cinema Novo”, pg 79).
Obs: primeiro ensaio a cores de Glauber, rodado entre “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Terra em Transe”.



JORJAMADO NO CINEMA (1979) - 37 minutos 
Jorjamado no Cinema foi feito para um programa de televisão consagrado ao escritor Jorge Amado. Nesse documentário, Jorge Amado é filmado em sua casa, rodeado por sua numerosa família; numa livraria, durante uma sessão de autógrafos de um de seus livros, em um cinema em Salvador, na avant-première do filme Tenda dos Milagres, de Nelson Pereira dos Santos, adaptação do livro homônimo de Jorge Amado. Glauber filma seu amigo com muito humor e carinho. A câmera vai evoluindo lentamente, sem cessar e com rapidez sobre o escritor, seus familiares, atores e atrizes do filme de Nelson, além de passar por objetos de rituais de candomblé que constituem o museu de Jorge Amado.



MARANHÃO 66 (1966) - 11 minutos 
Documentário que registra a posse de José Sarney como governador do Maranhão. Foi financiado pelo próprio evento que marcou o início do domínio político da família Sarney no Estado, que perdura até hoje. Em contraponto ao discurso de posse e da multidão em celebração, o filme mostra a miséria da população a ser governada. 


“É uma reportagem sobre as eleições de um governador (José Sarney) no Maranhão; é muito importante para mim, porque o filmei com som direto e foi uma experiência muito útil para “Terra em Transe” porque participei das etapas de uma campanha eleitoral”. Glauber Rocha - “O Estado de Minas” – 13/05/1980.

QUINTA - 03/11 - 19 HORAS NO ANFITEATRO JOÃO CARRIÇO -  (Av. Rio Branco, 2234 (Prédio da Funalfa) - Centro)

Matéria no site do Observatório da Diversidade Cultural


Diversidade na tela e na plateia

Como pensar os cineclubes como espaço para as expressões da diversidade cultural?
Cinemas e cineclubes partilham da mesma necessidade que os originaram: organizar o acesso e a distribuição dos filmes. Mas os clubes de cinema vieram com uma necessidade a mais: a participação e diálogo entre espectadores e criadores. Talvez seja isso o que ofereça ao movimento cineclubista um contexto próprio muito peculiar.
Há uma articulação que liga vários agentes, produtores e espectadores em rede; há um conselho nacional que promove ações e discute políticas para o segmento; há programas importantes e consolidados em territórios indígenas e comunidades mais distantes dos grandes centros etc. No Plano Nacional de Cultura, há diversas ações ligadas tanto para Cinema, quanto para Cineclube.
Como, afinal, podemos pensar o audiovisual e os cineclubes como linguagem e espaço que conseguem ser abrangentes tanto em termos de articulação e mobilização política, quanto em temos do encontro de singularidades?
Gilvan Dockhorn, secretário geral do Conselho Nacional de Cineclubes, lembra que, na era do que o escritor Giovanni Sartori chamou de “Homo Videns” somos “seres audiovisuais”. Isso quer dizer que nossa significação do mundo e criação de sentidos passa por conteúdos de áudio e imagem. Dockhorn também é professor de História e da área de Humanidades da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/RS), e coordena o Cineclube Abelin Nas Nuvens de Silveira.
“Mesmo que atualmente possamos perceber que o público tenha se formado no processo de desenvolvimento e institucionalização do cinema, o público se ampliou ao conjunto das indústrias culturais, das linguagens, dos suportes e formas de relação entre a criação e a recepção, cuja intermediação é apropriada pelo capital”, explica Gilvan. Para ele, o público somos todos os que não dominam ou possuem os meios de produção e distribuição da informação/conhecimento ou o resultado da produção – sempre coletiva – da cultura.
Segundo ele, mais de 90% dos municípios do país não contam com salas comerciais de cinema. Nesse cenário, a onda crescente de cineclubes que se constituem como espaços não apenas culturais, mas de politização da cultura no sentido de entendê-la como direito fundamental, se soma às iniciativas de garantia de acesso e apropriação de sentidos que a obra audiovisual propicia.
Com isso, os cineclubes configuram-se como espaço para a diversidade cultural e se fortalecem ao se colocarem abertos às diferentes manifestações ideológicas, desde que não representem segregação, intolerância ou preconceitos. “Isso não acontece nas salas comerciais porque elas são inviáveis em municípios com menos de 100.00 habitantes, que não representam o lucro necessário, uma vez que elas ignoram áreas deste tipo e compreendem o público como consumidor”, explica o professor.

Organização
O Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros – CNC comemora 50 anos congregando mais de 400 cineclubes de todo o país. A entidade representativa e sem caráter partidário, reúne cineclubes e cineclubistas e os organiza com características institucionais e estatutárias legais. “O CNC é a organização política dos cineclubes, assim, a participação efetiva fica condicionada à participação em alguma atividade cineclubista. No próximo mês, iniciaremos uma campanha de recadastramento em todo o país”, conta Gilvan.
O Secretário explica que o CNC e o cineclubismo organizado são espaços de debate e de mobilização em torno dos direitos do público no campo do audiovisual. “O movimento como instituição e como forma de organização específica de defesa do público não visa lucro ou remunera seus quadros, nem busca uma reforma criativa da gestão das leis de mercado, através de novos modelos de negócio. Não compreendemos a possibilidade inovação no mercado como forma de garantir a socialização bens culturais”, afirma Dockhorn.
Para acompanhar os trabalhos do CNC, é preciso pedir a inclusão da lista CNC Diálogo, que conta hoje com quase 2.000 participantes. O pedido pode ser feito por meio do site do CNC.

Sem paredes
Em Juiz de Fora (MG), Daiverson Machado é um dos idealizadores do cineclube “Bordel Sem Paredes”. Aluno do curso Desenvolvimento e Gestão Cultural oferecido pelo ODC/Pensar e Agir com a Cultura, naquela cidade, em 2010, Daiverson foi instigado a pensar nas necessidades culturais do município. “Apaixonado por cinema, logo expus a falta de um espaço de exibição de filmes fora do circuito comercial e de reflexão crítica”, lembra.
A partir disso, surgiu o Cineclube Bordel Sem Paredes, que já é filiado ao CNC, e conta com programação de mostras e exibições semanais, que acontecem às quintas-feiras, no Anfiteatro João Carriço/FUNALFA, às 19horas.
“O perfil dos participantes é bem eclético, contamos com senhores da terceira idade, donas de casa, estudantes, professores, artistas e cinéfilos etc. O que atende a um dos nossos principais desejos, que é trazer uma diversidade de público para difusão e democratização desse cinema”, conta Machado.
Para ele, o cineclubismo é uma atividade essencialmente coletiva e o contato com a arte cinematográfica proporcionado pelo cineclube vai totalmente ao contrário de toda onda digital e virtual vista hoje: pessoas preferindo fazer downloads dos filmes e assisti-los na tela do computador em suas casas, ou então assistir ao mais novo blockbuster no cinema do shopping, com a namorada e um saco de pipoca. “O que vejo como mais importante em um cineclube é a troca de idéias e o compartilhamento de emoções. É importante que todos nós sejamos leitores, espectadores e estejamos abertos para qualquer filme, é estar sem paredes no pensamento”, diz.

Para saber mais sobre o cineclubismo:
Observatório Cineclubista Brasileiro – http://www.culturadigital.br/cineclubes/
Conselho Nacional de Cineclubes – http://cncbrasil.wordpress.com/cnc-brasil/
Cineclube Bordel Sem Paredes – http://bordelsemparedes.blogspot.com/
Programa Cine Mais Cultura – http://www.cinemaiscultura.org.br/

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Idade da Terra


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MOSTRA GLAUBER SEM PAREDES

O Cineclube Bordel sem Paredes, tem o orgulho de apresentar a mostra "Glauber sem Paredes", para celebrar um dos personagens mais intrigantes da história brasileira recente. O cineasta Glauber Rocha, trinta anos após sua morte continua a provocar reflexões sobre o cinema, tanto pela qualidade e inovação, quanto pelas propostas revolucionárias que se mantém atuais. A mostra começa nesta quinta-feira com o filme "A Idade da Terra" as 19 horas no Anfiteatro João Carriço com entrada franca. 

A mostra segue no dia 03/11, com a exibição dos principais curtas-metragens produzidos pelo cineasta: "Di Glauber" filme polêmico filmado no funeral do pintor modernista Di Cavalcanti, "Maranhão 66" produzido durante a campanha eleitoral de José Sarney ao governo do Maranhão, "Jorjamado no Cinema" sobre o escritor baiano e "O Pátio" primeiro filme experimental do cineasta.  No dia 10/11 a participação de Glauber Rocha no Programa Abertura da TV Tupi, será exibida em imagens inéditas e raras e pra finalizar "Barravento", primeiro longa-metragem de Glauber Rocha será exibido no dia 17/11, todos no Anfiteatro João Carriço, sempre as 19 horas. 

Dono de uma produção extensa e singular, Glauber Rocha foi uma figura importantíssima dentro da história recente do país, trazendo discussões e debates acerca da arte, da cultura, da política e da sociedade. Tanto do ponto de vista estético e formal, quanto do ponto de vista da problemática social, suas obras nunca se conformaram com um padrão pré-estabelecido de criação, trazendo diversas reflexões e problematizando o cinema, a organização social brasileira e o papel do intelectual e artista dentro do processo de transformação dessa realidade.

Foi um artista atuante, que nunca parou de pensar, discutir e tentar transformar a realidade do país. Como porta-voz do Cinema Novo, Glauber Rocha influenciou cineastas latino-americanos e foi um dos precursores do conceito de mostrar na tela a realidade política, indo contra a censura, a comercialização e a exploração.

O diretor brasileiro foi capaz de lidar com a experimentação estética de vanguarda em diversos níveis – do roteiro e da fotografia ao trabalho literário com a palavra e experiências de montagem radicais – chocando com suas imagens da pobreza e da fome.


A IDADE DA TERRA - QUINTA-FEIRA - 27/10 - 19 HORAS

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"Mosaico sinfônico. A Idade da Terra se insere solidamente dentro da tradição artística latino-americana. A proposta de aprisionar o espírito de uma nacionalidade numa só obra remete direto aos muralistas mexicanos. A imagem de Rivera - ou seria Siqueiros? - em cima de uma escada, pincel na mão, diante de uma superfície imensa que reduzia a bem pouco o tamanho do artista, compondo em figuras toda a história de seu povo evoca a de Glauber Rocha envolvido anos a fio nos quilômetros de fita que ele mesmo gerou na fadiga quixotesca (ou dantesca?) de contar seu país. O exacerbamento nacionalista de sua obra, despido agora de qualquer compromisso narrativo, encontra enfim seu estado puro. Como se não existisse a dimensão do tempo "só o real é eterno” - o filmemural dispõe seus blocos de significados espacialmente, numa estrutura atonal que avança por rupturas entre a Bahia, Brasília e Rio. Nascimento de Cristo, Cristo-povo e Cristo-Rei, Cristo guerreiro e Cristo profeta, o mundo sem Cristo e por toda a parte, Brahms, o anti-Cristo. Esta parábola, em si mesmo uma sucessão de parábolas, e disposta como num quadro de batalha em que há varias ações simultâneas e o olho passeia dentro dele, ordenando-as. (...)"

Deus e o Diabo na Idade da Terra em Transe, de Gustavo Dahl
em Jornal do Brasil
Rio de Janeiro, 25/nov./1980.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Saló - 120 Dias de Sodoma























Do site Boca do Inferno 



POR MATHEUS FERRAZ
Introdução

“Não há nada tão glorificante como o mal.”
O Magistrado

Quando se fala em filmes capazes de perturbar o espectador, não apenas durante a projeção, mas depois que as luzes se apagam, ficando grudada em sua mente, poucas obras possuem o status de “Salò, ou Os 120 dias de Sodoma” (Itália, 1975), canto do cisne de Pier Paolo Pasolini, e que constitui uma das obras mais brutais, viscerais e desconcertantes já mostradas em película. Não se trata apenas de fazer o espectador se contorcer na poltrona e tampar os olhos nos momentos mais fortes. A obra é um conjunto de idéias, imagens e símbolos capaz de mostrar o lado mais distorcido da humanidade e abalar a fé que qualquer um possa ter no ser humano.

“Salò” é baseado no livro “Os 120 dias de Sodoma, ou a Escola da Libertinagem”, do Marquês de Sade, considerado a obra máxima deste autor que se tornou sinônimo de devassidão e violência sexual aberrante. Pasolini adaptou a trama, originalmente situada na França pós-revolução, para a Itália fascista, onde ele próprio viveu. Assim, ao invés de apenas narrar os horrores causados pelos quatro libertinos conhecidos como “os amigos”, Pasolini deu um passo além, encaixando a narrativa num dos momentos mais críticos da história humana, a Segunda Guerra Mundial.

Acompanhe agora este artigo sobre a obra de Pasolini e Sade, e entenda mais a fundo sobre esta verdadeira descida ao Inferno.

Parte um: Sade na Bastilha


“Se fosse justo, não nos deixaria de pau duro.”
O Duque

Donatien Alphonse François de Sade, O Marquês de Sade (1740-1814), o mais conhecido e célebre autor libertino da literatura, foi preso várias vezes durante sua conturbada vida, por crimes de tortura, homossexualismo, sodomia e diversos outros. Foi numa destas prisões, num episódio tão interessante quanto suas obras, que ele veio a conceber “Os 120 dias…”.

Preso numa cela da Bastilha, a prisão mais temida da França, tendo em mãos um enorme rolo de papel e um lápis, que ele se pôs a escrever num período de 37 dias as mais de trezentas páginas de “Os 120 dias…”. Tendo a luz do sol a sua disposição apenas uma hora por dia, é um fato espantoso que tenha conseguido compor todo este colosso em tão pouco tempo e em tais condições.

O livro estava incompleto quando a Bastilha foi tomada na revolução, e Sade se viu obrigado a abandonar seu adorado manuscrito, escondido nas frinchas de sua cela. Até o dia de sua morte, ele acreditou ter perdido para sempre aquele rolo, o que, segundo suas próprias palavras o fez “verter lágrimas de sangue”.

Entretanto, após sua morte o manuscrito foi encontrado, mas devido a seu conteúdo explosivo, não foi publicado até 1904, numa tiragem limitada. Apenas 50 anos depois, o livro foi disponibilizado para o grande público.

Parte 2: “A narrativa mais impura que o mundo já viu”


“Tudo é bom em excesso!”
O Bispo

120 dias, 600 paixões. Os quatro libertinos conhecido como “os amigos” resolvem combinar suas imensas fortunas para bancar a maior orgia já concebida pela mente humana. Para isso gastam quantias enormes para levar até o chateau Silling, castelo isolado de propriedade de um deles, um grupo de 8 garotos, 8 garotas, 4 narradoras, 4 putas velhas, 8 garanhões, 4 criadas, 6 cozinheiras e suas 4 filhas, casadas entre eles.

Nestes 120 dias, os quatro devassos iram cometer todo tipo de barbaridade contra estas crianças, enquanto ouvem as histórias das narradoras, prostitutas experientes que contarão todas as perversões que já testemunharam na vida.

Os libertinos são:

O Duque de Blangis: “(…) falso, implacável, imperioso, bárbaro, egoísta, tão pródigo para seus prazeres quanto avarento para o que havia de ser útil, mentiroso, guloso, beberrão, covarde, sodomita, incestuoso, assassino, incendiário, ladrão, sem que virtude alguma lhe compensasse os vícios.” Matou a mãe, a irmã e a esposa.

O Presidente Curval: “Igualmente sórdido em toda a sua pessoa, o Presidente, que a isso acrescia gostos no mínimo tão porcos quanto sua pessoa, tornava-se um personagem cuja presença tão fedorenta podia não agradar a todos(…)”

O Bispo: “A negrura de sua alma era a mesma de seu irmão, o Duque, assim como o pendor para o crime, o desprezo pela religião, o ateísmo, a velhacaria (…)”

O Magistrado Durcet: “(…)implicante, falso, traiçoeiro e pérfido”

A orgia termina em carnificina, em meio a jantares de excrementos, estupros, mutilações e desmembramentos. O espírito dos libertinos, associado à natureza das narrações, termina por massacrar a todas as suas vítimas das formas mais impiedosas ao fim dos 120 dias.

Parte 3: O filme


“Não há perdão sem derramamento de sangue. Sem derramamento
de sangue não há perdão.”
O Magistrado

O filme segue fielmente o livro, apenas eliminadno o papel das prostitutas velhas e transofrmando uma das narradoras em pianista. A primeira cena apresenta os quatro libertinos organizando a orgia. Numa cena icônica, eles assinam o documento e oficializam tudo. Depois de realizar o casamento de uns com a filha dos outros, eles selecionam o grupo de vítimas que serão levadas para a orgia.

Os libertinos começam a se revelar enquanto selecionam as vítimas. Uma garota, jogada completamente nua à sua frente, declara que sua mãe foi assassinada pelos soldados. Eles riem. Procuram garotos e garotas pelo beleza, que deve ser perfeita. Feita a seleção, eles são levados ao castelo, onde terá início a devassidão.


NOTA: Pasolini filmou as cenas iniciais de seu filme na verdadeira cidade de Salò. O castelo de Silling foi substituído por um imponente  na cidade de Marzabotto (mais abaixo), que existe ainda hoje, e é um hotel luxuoso.

Na entrada do castelo, são recepcionados pelo Duque, com um discurso ameaçador: “Sua criaturas fracas! Ralé, destinada ao nosso prazer. Não esperem aqui a liberdade garantida lá fora. Vocês aqui estão além de qualquer lei. Ninguém sabe que estão aqui. Pelo que importa ao mundo, já estão mortos.”

Inicia-se o primeiro ciclo do filme, chamado de Ciclo das Manias. Nele, se concentram as histórias da Senhora Vaccari, uma das narradoras, que contará as histórias relacionadas as estranhas manias que testemunhou em sua carreira de prostituta. Todos ouvem no salão, e qualquer um dos “amigos” pode retirar qualquer vítima, para se satisfazer nas alcovas.

No segundo ciclo, o Ciclo da Merda, a Senhora Maggi conta histórias relativas a sexo envolvendo fezes. Isso estimula os libertinos a realizar o sonho do Presidente, e realizar um banquete de excrementos, onde toda a merda coletada das vítimas é preparada e servida no jantar.

No terceiro e último ciclo, o Ciclo do Sangue,  a Senhora Castelli conta as histórias envolvendo morte e mutilação durante o sexo. É o último ciclo, ao final do qual as crianças que não tiverem se formado na “Escola da Libertinagem” serão torturadas e mortas, na cena que fecha o filme.

Há estupro, tortura, crueldade, abuso, depravação, assassinato, orgias, sodomia. Há muito sexo, mas todo ele é vazio, e mesmo os libertinos parecem não tirar prazer algum de tudo isso. Os corpos não valem nada, e mesmo as vítimas assistem a tudo como se nada estivesse acontecendo, sem reagir.

O fechamento do filme, visto do ponto de vista dos libertinos, mostra as vítimas sendo torturadas até a morte, o que inclui amputação, mutilação, escalpelamento e mais estupro. A cena final, assustadoramente irônica, fecha com chave de ouro esta obra prima.


Parte 4: Um pouco de história


“Nós, fascistas, somos os únicos verdadeiros anarquistas.”
O Duque

Segunda Guerra Mundial. Em julho de 1943, as tropas aliadas chegaram à Sicília, na Itália fascista. Cansados da subjugação do governo, o povo não colaborou no esforço de guerra, o que acabou com a deposição de Mussolini, substituído por Pietro Badolgio, que anunciou a rendição da Itália em 8 de setembro do mesmo mês. Hitler ordenou, então, que Mussolini criasse uma nova república fascista, ou teria de enfrentar também o exército alemão.

Em 23 de setembro de 1943, na cidade setentrional de Salò, às margens do lago de Garda, Mussolini se instalou, declarando aquela a nova República Social Italiana, que seria dissolvida em 29 de abril de 1945. Neste período o filme se situa, caracterizando fielmente as condições militares, como o fato de a maioria dos soldados serem adolescentes, assim como armamentos e roupas completamente fiéis à realidade.

A vila de Marzabotto, onde a orgia acontece, foi palco de um massacre de 1830 vítimas entre 29 de setembro e 5 de outubro de 1944, poucos meses antes da época em que o filme toma lugar.



Parte 5: A Vida após Salò


“Então, coma  merda!”
O Presidente

Muitos dos atores de Salò não eram profissionais, e a grande maioria não teve muita carreira depois. Conheça o aqueles que tiveram histórias mais interessantes.

Paolo Bonaccelli (O Duque): O mais bem sucedido após Salò. Este ator de voz e aparência intimidantes veio a participar de filmes como Calígula, Missão: Impossível III e o esperado O Americano. Seu outro grande destaque, entretanto, foi no papel de Rifik, em O Expresso da Meia-Noite, com destaque para a cena que tem sua língua arrancada a dentadas.

Aldo Valletti (O Presidente): O intérprete do asqueroso Presidente era, sem dúvida, o mais perturbador dos libertinos, com sua expressão bizarra e olhos vesgos. Veio a morrer em 1992. Sua outra participação memorável no cinema foi numa rápida ponta em Sallon Kitty, de Tinto Brass. Curiosamente, foi dublado por Marco Bellochio, que hoje é um cineasta respeitado.

Giorgio Cataldi (O Bispo): Depois de sua interpretação visceral do frio e impetuoso Bispo, Cataldi teve um papel na comedia Ragazza allá pari, em 1976, e desapareceu do radar. Não se sabe nem se ainda vive.

Umberto Paolo Quintavalle (O Magistrado): Apesar da entrega total a que se submeteu no filme, Quintavalle nunca havia tido treinamento como ator. Era um escritor, escolhido por Pasolini por sua aparência física, “que é a de um intelectual decadente, exatamente o que eu preciso”, segundo o diretor. Era pai do técnico de efeitos especiais Sírio Quintavalle. Morreu em 1997.

Caterina Boratto (Senhora Castelli): A narradora do Ciclo do Sangue já tinha uma carreira bem sucedida, tendo de clássicos como 8 ½ e Danger: Diabolik, antes de Salò. Ainda vive.

Elsa de Giorgi (Senhora Maggi): A narradora do Ciclo da Merda foi mais conhecida por seu affair amoroso com o famoso autor Ítalo Calvino, décadas antes de protagonizar suas cenas coprofágicas. Morreu em 1997.

Hèlene Surgère (Senhora Vaccari): A narradora do Ciclo das Manias continuou sua carreira na França, sem muito destaque. Participou da comédia romântica À Francesa. Assim como Aldo Valetti, foi dublada no filme, por Laura Betti, que trabalhou com Pasolini em Teorema. No documentário que acompanha o DVD americano, deu uma curiosa declaração de que as filmagens de Salò foram divertidas e joviais, e o filme se tornou o que é na sala de edição. Ainda vive.

Franco Merli (vítima): Como todos os atores jovens do filme, Franco Merli usou o próprio nome no personagem. Era um atendente de posto de gasolina que foi descoberto por Pasolini e convidado para participar de seu As Mil e uma Noites. Depois de Salò, teve poucos papéis e largou o cinema. É o rapaz vencedor do “concurso” no filme, e que tem a língua cortada no final. Ainda vive.

Umberto Chessari (vítima): Não atuou mais, mas se tornou operador de câmera da dupla Bruno Mattei e Cláudio Fragasso.

Renata Moar (vítima): Numa interessante ironia, Renata voltou ao cinema interpretando uma nazista, no excelente nazi-exploitation Nazi Love Camp 27. Em Salò, ela é a garota que perde a mãe e é forçada a comer o excremento do Duque.

Antiniska Nemour (vítima): Essa belíssima italiana voltou também em um nazi-exploitation, mas novamente como vítima. Em Gestapo’s Last Orgy, Antiniska é mais uma vez torturada e sacrificada pelos nazistas. Fez também o fraco giallo Sorella di Ursula, onde mais uma vez se deu mal. Não atuou mais. É uma das garotas pegas na cama pelo Bispo.

Inês Pellegrini (criada): Essa atriz negra já havia trabalhado com Pasolini em As Mil e Uma Noites. Era uma atriz muito popular na Itália nos anos 70. Vive agora em Los Angeles com o marido, trabalhando como voluntária ajudando os pobres e sem teto.

Pier Paolo Pasolini (diretor e roteirista): Nasceu em Bolonha, em 1922. Durante a Guerra, testemunhou ainda jovem os horrores do fascismo. Dirigiu clássicos como Medeia, Mamma Roma, Teorema, Édipo Rei e O Evangelho segundo São Mateus. É mais conhecido por sua Trilogia da Vida, composta por Decamerão, Os Contos de Canterbury e As Mil e Uma Noites. Era marxista, homossexual e literato. Pretendia iniciar com Salò sua chamada Trilogia da Morte, mas foi assassinado logo após o lançamento de filme, esmagado pelo próprio carro, alguns acreditam que a mando da Igreja.



“Você deve ser estúpido para pensar que a morte viria tão rapidamente. Não sabe que nossa intenção é matá-lo milhares de vezes? Até o fim da eternidade, se a eternidade tiver fim.”


O Bispo



QUINTA - 06/10 - 19 horas - Videoteca João Carriço (Av. Rio Branco, 2234 (Prédio da Funalfa) - Centro)


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Macunaíma - Joaquim Pedro de Andrade


























Luiz Joaquim da Silva Jr.*


Não há como evitar o riso logo na primeira imagem projetada por Macunaíma, a adaptação realizada por Joaquim Pedro de Andrade em 1969 para o homônimo romance Modernista escrito por Mário de Andrade em 1928. É um riso que vem pelo absurdo da situação mostrada, com Paulo José aos berros, travestido como uma velha a parir o bebê Grande Otelo; e é um riso que encontra mais fôlego no despojamento das relações entre si e com o universo que cerca os personagens brasileiros em foco no filme.

Quatro décadas separam a obra literária da cinematográfica e cada uma, a seu modo e em seu terreno de funcionamento, quebrou paradigmas narrativos e discursivos. Se no romance Mário de Andrade chamava a atenção para as raízes do Brasil e seu folclore, tentando imitar na escrita o modo de falar e os provérbios do brasileiro (?sonhei que caía meu dente, é morte de parente?) e assim desvinculando-se do Romantismo, o filme de Joaquim Pedro é reconhecido como um dos derradeiros representantes do Cinema Novo, mas utilizando-se de concepções estética rejeitadas pelo movimento e com características mais próximas da Chanchada. O humor é seu bastião maior para sugerir uma reflexão sobre a realidade brasileira.


O resultado foi espetacular. Macunaíma foi considerado por muitos (crítica e público) o melhor filme brasileiro de 1969. Além de eleito melhor filme no Festival de Mar del Plata e de Brasília (onde arrebatou também os troféus Candangos de cenografia, figurino e melhor ator para Grande Otelo e coadjuvante para Jardel Filho), a obra ficou por quase um ano em cartaz circulando pelo País, levando multidões aos cinemas.

A popularidade vinha pelas gargalhadas e as gargalhadas vinham pela identificação com o ?herói de nossa gente? e suas presepadas. É um Macunaíma negro (Grande Otelo), que pula de felicidade ao ficar branco (Paulo José) quando passa por uma fonte milagrosa, e cujo expressão preferida é ?Ai, que preguiça!?. O ?nosso herói? é um sem caráter que adora dinheiro e as sem-vergonhices do sexo, além de sua rede (não necessariamente nesta ordem).

Sob uma trilha sonora que oferece de Francisco Alves e Silvio Caldas até Roberto Carlos e Jorge Ben, e apoiado por um elenco estupendo, orientado para encontrar na extravagância da caricatura a expressão adequada a compor está fábula, Joaquim Pedro consegue criar uma atmosfera única no cinema nacional. Fala do Brasil e do brasileiro fazendo-o rir de sua moral, virtude e vício.

Seja quando Macunaíma é perseguido pelo Curupira a gritar ?carne da minha perna?; seja no discurso em praça pública num ?feriado inventado? ? quando nosso herói se rebela dizendo que o símbolo do Brasil não são as estrelas do Cruzeiro do Sul, mas sim o futebol, o maruím, a muriçoca, a frieira e a espinhela-caída ?; ou seja ainda no candomblé, através do qual se vinga do burguês antropofágico Venceslau Pietro Pietra (Jardel Filho), é o Brasil que está a desfilar na nossa frente em sua forma mais autêntica e corajosa.

*Crítico de cinema do jornal Folha de Pernambuco, curador do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e professor da Especialização em Cinema da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).










QUINTA - 29/09 - 19 horas - Videoteca João Carriço (Av. Rio Branco, 2234 (Prédio da Funalfa) - Centro)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Pink Flamingos


























Ultrajante, repulsivo, escatológico, asqueroso e outros predicados não mais nobres foram utilizados para descrever Pink flamingos, obra máxima de John Waters em cartaz essa semana no Cineclube Bordel sem Paredes, filme que melhor simboliza o cinema underground. Não é para qualquer um... Como o próprio diretor definiu sua obra: trata-se de um exercício de mau gosto.

Com um humor ácido, recheado de situações bizarras, o enorme travesti Divine disputa com um casal de vizinhos insanos o título de pessoa mais imunda do mundo. Não foi à toa que, nas sessões de estréia de Pink flamingos, sacos de vômito eram oferecidos aos espectadores. O filme tem cenas de incesto, zoofilia, podolatria e canibalismo. Fora um ânus cantante, que abre e fecha ao som de "Surfin' bird", e uma seqüência realmente imunda na qual Divine come fezes fresquinhas de um pequeno poodle.














O filme foi rodado com um orçamento de apenas US$ 5 mil. Como locações, uma fazenda, o apartamento de Waters e um trailer caindo aos pedaços. O resultado é quase amador, mas é justamente o empreendedorismo do diretor que rendeu não só críticas negativas, mas uma certa notiredade - ainda que fora do mainstream. Sua fama cresceu a ponto de ficar conhecido no mundo todo. Mais tarde, seria responsável por produções consideradas pela crítica como bem mais maduras, mas ainda undergrounds: Hairspray, Cry baby, Polyester e Mamãe é de morte.

Um tapa na cara com luva, de couro, nos provincianos bons costumes dos estadunidenses. Uma obra indispensável para quem tem curiosidade de experimentar uma estética cinematográfica incomum, peculiar.





QUINTA - 22/09 - 19 horas - Videoteca João Carriço (Av. Rio Branco, 2234 (Prédio da Funalfa) - Centro)